{"id":477,"date":"2022-09-06T09:22:11","date_gmt":"2022-09-06T09:22:11","guid":{"rendered":"https:\/\/matilde.intellego.pt\/?p=477"},"modified":"2022-09-06T09:22:11","modified_gmt":"2022-09-06T09:22:11","slug":"capitulo-ii-um-novo-amigo-as-suas-historias-e-as-suas-licoes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/matilde.intellego.pt\/index.php\/2022\/09\/06\/capitulo-ii-um-novo-amigo-as-suas-historias-e-as-suas-licoes\/","title":{"rendered":"Cap\u00edtulo II &#8211; Um novo amigo, as suas hist\u00f3rias e as suas li\u00e7\u00f5es"},"content":{"rendered":"\n<p>Segundo cap\u00edtulo da hist\u00f3ria do Frango independente que fugiu da capoeira por recria\u00e7\u00e3o pr\u00f3pria. Espero que gostem!<\/p>\n\n\n\n<pre class=\"wp-block-code\"><code>Subiram novamente para o passeio e come\u00e7aram a caminhar na dire\u00e7\u00e3o indicada pelo gato, que parecia super energ\u00e9tico e movia-se a uma velocidade relativamente grande.\n\u2014 Tem calma, que as minhas patas n\u00e3o s\u00e3o \u00e1geis e fortes como as tuas.\n\u2014 Ao menos reconheces. \u2014 disse o gato, com o seu ar imponente do costume. Depois olhou para o frango, que lhe fazia uma cara a dizer \u201ca s\u00e9rio?\u201d e revirava os olhos. \u2014 Est\u00e1 bem, pronto, mas vamos ent\u00e3o ao que interessa. Vou contar-te de quando passei fome pela primeira vez. Ent\u00e3o, eu sou um gato de rua, como tu v\u00eas, e nunca tive uma vida completamente digna de um gato como eu. OK, OK, eu tive de aprender a dar valor a mim mesmo, porque n\u00e3o tenho ningu\u00e9m que me ame. \u2014 admitiu o gato, com o olhar focado no ch\u00e3o. Abrandou por um bocado, e o frango, que j\u00e1 estava a ter outra vez a mesma rea\u00e7\u00e3o de revirar os olhos, ficou com pena do gato. Sabia que a dona n\u00e3o o adorava como tudo no mundo, mas gostava dele e dava-lhe carinho e tempo. E isso j\u00e1 era muito para ele. Talvez n\u00e3o soubesse o que era ser amado como fam\u00edlia, mas sabia o que era a falta de carinho e de aten\u00e7\u00e3o, quando a dona sa\u00eda e ele ficava entregue aos frangos mais velhos, que tentavam pic\u00e1-lo por tamb\u00e9m ser macho.\n\u2014 Eu dou-te valor. Sou s\u00f3 um frango indefeso e esfomeado, e sa\u00edste do teu caminho para me ajudar. Isso demonstra simpatia e compaix\u00e3o.\n\u2014 Obrigado. \u2014 agradeceu o gato. Olhou para ele com uma cara um tanto comovida, mas depois olhou para a frente e continuou a sua hist\u00f3ria. \u2014 Mas pronto, ent\u00e3o, eu comia ratos que ca\u00e7ava, e p\u00e1ssaros que apanhava, e erva-de-gato, como \u00e9 \u00f3bvio, e, j\u00e1 agora, este terreno est\u00e1 cheio dela. Ah, tamb\u00e9m comia alguns croquetes de algumas pessoas que me davam quando eu ia a casa delas. Nunca deixei que ningu\u00e9m me adotasse, quero ser selvagem. Sempre fiz tudo isto, desde que sou selvagem.\n\u2014 Tu j\u00e1 foste dom\u00e9stico?\n\u2014 Eu\u2026 sim. Nasci de uma gata que uma senhora idosa tinha. Ela emprenhou e a senhora n\u00e3o reparou logo. S\u00f3 umas semanas antes de eu nascer \u00e9 que ela reparou. Dessa vez s\u00f3 me teve a mim, era o seu \u00fanico filho. Por isso nunca brinquei com gatinhos beb\u00e9s da minha idade quando era pequeno, s\u00f3 com a minha m\u00e3e. Quando eu a larguei e comecei a ficar um gato jovem, tipo adolescente, j\u00e1 completamente independente, porque eu ganhei independ\u00eancia muito cedo, ela deu-me a uma senhora da casa dos quarenta anos, que tinha uma filha adolescente que queria muito ter um gato. A m\u00e3e, Ana, falou nisso \u00e0 senhora Helena e ela deu-lhe um gato, eu. A senhora Ana n\u00e3o me queria, e ent\u00e3o fez prometer \u00e0 filha Filipa que tomava conta de mim e assumia a responsabilidade. A Filipa estava muito contente por ter um gato, e ent\u00e3o prometeu e tomou conta de mim durante imenso tempo. E foi durante esse tempo que eu descobri o que \u00e9 ser amado. Ela levava-me para a escola para n\u00e3o me deixar sozinho na rua, porque a m\u00e3e dela n\u00e3o gostava de animais dentro de casa sem supervis\u00e3o. Os colegas dela faziam-me mimos e eu era sempre o centro das aten\u00e7\u00f5es. Ainda n\u00e3o era adulto e sentia-me o gato mais feliz do mundo. Mas a filha da minha dona tinha imenso trabalho, porque a m\u00e3e obrigava-a a limpar a casa por causa do p\u00ealo que eu largava. At\u00e9 que um dia, quando ela entrou para o secund\u00e1rio, com todas as atividades que ela tinha na altura, m\u00fasica, dan\u00e7a, clubes de fotografia, desenho, teatro, e ainda aulas de pintura, para al\u00e9m das limpezas do ch\u00e3o e cuidar de mim, a Filipa n\u00e3o conseguiu aguentar a press\u00e3o e simplesmente adormeceu em cima dos livros quando estava a estudar para o teste do dia seguinte. Acordou sobressaltada com um grito da m\u00e3e, que recebera uma chamada da professora a dizer que ela n\u00e3o fazia os trabalhos de casa h\u00e1 uma semana. Levou um raspanete de meia hora enquanto se vestia \u00e0 pressa, pois j\u00e1 estava atrasada para a escola, e ainda ouviu mais quando a m\u00e3e descobriu que ela que n\u00e3o tinha limpo o ch\u00e3o no dia anterior, pois ela estava a espirrar muito. Sim, a senhora \fAna n\u00e3o reagia muito bem ao p\u00ealo de gato, por isso \u00e9 que p\u00f4s a filha a limpar, uma vez que foi ela que me quis. Ent\u00e3o ela foi para a escola a chorar e sem mim. A senhora Ana pegou em mim, e eu lembro-me que comecei a miar para voltar para os bra\u00e7os da Filipa. Mas a m\u00e3e disse que tomava conta de mim enquanto ela estava na escola porque via que ela estava sobrecarregada e que eu estava a dar muito trabalho. Ela disse que n\u00e3o, que o problema n\u00e3o era eu, e que as aulas de dan\u00e7a eram cansativas e que o clube de teatro desgastava muito a cabe\u00e7a. Mas a m\u00e3e n\u00e3o a deixava aliviar a carga hor\u00e1ria. E, nesse dia, quando ela foi para a escola, pegou no carro e veio deixar-me ao lado da escola secund\u00e1ria de Vale de Cambra. Ela morava em S\u00e3o Jo\u00e3o da Madeira, e ent\u00e3o eu preferi nem sequer tentar voltar para casa e ficar selvagem. Fiz a minha vida aqui e agora estou a contar a minha hist\u00f3ria de vida a um frango que conheci h\u00e1 uns minutos. N\u00e3o quero voltar a ser dom\u00e9stico, as pessoas s\u00e3o m\u00e1s e abandonam os animais sem eles terem culpa. A senhora Ana era mesmo m\u00e1 e exigia muito da filha. Sempre tive pena da pobre Filipe, que passou a sua inf\u00e2ncia em atividades e a trabalhar para ter as excelentes notas que tinha na escola. E ainda cuidava de mim. A Filipa \u00e9 a \u00fanica pessoa em quem confio e que sei que nunca me abandonaria. Ela ama-me como qualquer animal merece ser amado por algu\u00e9m.\n\u2014 N\u00e3o sabia que tinhas uma hist\u00f3ria t\u00e3o bonita por tr\u00e1s\u2026\n\u2014 Pois. Infelizmente ningu\u00e9m sabe. Agora queres saber ent\u00e3o sobre a primeira vez que passei fome?\n\u2014 Sim.\n\u2014 Ent\u00e3o ouve. Foi uma vez em pleno inverno, quando deu um nev\u00e3o. Eu tinha decidido que queria explorar o mundo, foi uns meses depois de me abandonarem. Ent\u00e3o fui para a Serra da Freita, completamente sozinho. Comi bastantes ratos antes de ir, e quando fui estava muito frio. Andei por l\u00e1, cacei uns ratos mais gorduchos que por l\u00e1 andavam, e quando estava a comer um senti frio no p\u00ealo. Olhei para cima de mim e estava a cair neve por todo lado. Estava longe de casa, e decidi come\u00e7ar a caminhar. Mas a neve foi subindo, e eu n\u00e3o estava habituado \u00e0quelas temperaturas. As minhas patas estavam frias, e eu n\u00e3o conseguia aguentar mais o frio. Fui obrigado e subir para cima de uma \u00e1rvore e a enfiar-me num buraco com dois esquilos. Controlei-me para n\u00e3o os comer e fui simp\u00e1tico. Eles receberam-me bem, e aqueceram-me quando ganharam confian\u00e7a. Passadas umas duas horas, o nev\u00e3o j\u00e1 estava a parar, mas eu estava cheio de fome e longe de casa, e a neve continuava l\u00e1 no ch\u00e3o. Os esquilos queriam ajudar, mas s\u00f3 ofereciam nozes. Ent\u00e3o eu esperei que o nev\u00e3o parasse, e depois comecei a caminhar pela neve. Estava gelado quando sa\u00ed dali, e soube que sa\u00ed porque a neve foi ficando cada vez menos espessa \u00e0 medida que eu andava. At\u00e9 que cheguei a uma estrada que j\u00e1 s\u00f3 tinha possas e gelo, e a\u00ed sabia o resto do caminho e continuei a caminhar. Quando, vindo do nada, um carro chegou a derrapar e bateu numa \u00e1rvore ao lado do s\u00edtio onde eu me encontrava. Cheio de medo, dei um salto e o meu p\u00ealo ficou todo eri\u00e7ado. Ainda tive mais frio e j\u00e1 estava cheio de fome. Dei uma corrida para aquecer e rapidamente cheguei a casa. O que vale \u00e9 que os passarinhos estavam no ch\u00e3o a comer sementes e eu pude apanhar uns quantos. Deliciei-me e comer nunca me soube t\u00e3o bem. E, como v\u00eas, tamb\u00e9m j\u00e1 passei fome. Claro que nunca mais me voltei a aventurar assim sozinho sem plano B e sem provis\u00f5es, foi um erro da minha parte. O que interessa \u00e9 que aprendi com ele, e \u00e9 por isso que temos de errar para aprender.\n\u2014 O erro \u00e9 natural. A natureza n\u00e3o \u00e9 perfeita. Quem n\u00e3o erra \u00e9 porque n\u00e3o tenta e n\u00e3o faz. Eu nunca tive oportunidade. Agora que tenho quero experimentar tudo o que esta nova vida tem para me dar.\n\u2014 Incluindo comer o que gostas como quiseres, porque tudo sabe melhor quando somos n\u00f3s a preparar. Cheg\u00e1mos!\n\u00c0 sua frente estava um enorme campo com plantas do milho, cada uma com uma espiga dourada na ponta, enrolada em folhas compridas e verdes.\n\u2014 Onde est\u00e1 o milho? \u2014 perguntou o frango. O gato desceu a erva at\u00e9 ao campo, dobrou uma planta com o seu pr\u00f3prio peso quando se pendurou nela e cortou a espiga com as garras. Depois desembrulhou-a e mostrou-a ao frango.\n\u2014 Aqui.\n\u2014 E tenho de fazer isso com todas?!\n\u2014 Pensavas que era f\u00e1cil ser selvagem? J\u00e1 n\u00e3o tens comida a cair do c\u00e9u.\n\u2014 Obrigado, gato, o que faria sem ti\u2026\n\u2014 Procurar gr\u00e3os de milho e feij\u00e3o cozido no ch\u00e3o?\n\u2014 Pois, sim\u2026 A prop\u00f3sito, tiveste algu\u00e9m a ensinar-te como ser selvagem?\n\u2014 N\u00e3o, n\u00f3s os gatos temos instinto natural. Voc\u00eas frangos passaram demasiadas gera\u00e7\u00f5es em cativeiro e perderam o vosso.\nO frango pareceu indignado e um tanto ofendido, tal foi o olhar que lan\u00e7ou ao gato.\n\u2014 Sem ofensa, s\u00e3o factos cientificamente comprovados. A culpa n\u00e3o \u00e9 vossa, mas sim de quem vos domesticou.\n\u2014 Pois\u2026 \u00c9 frustrante saber que nos tiraram a liberdade e a capacidade de sobreviver num ambiente selvagem.\n\u2014 Acredito. Os c\u00e3es foram iguais a voc\u00eas. Tamb\u00e9m j\u00e1 foram selvagens.\n\u2014 A s\u00e9rio?\n\u2014 Sim, tens muito para descobrir. N\u00f3s gatos fomos exce\u00e7\u00e3o. J\u00e1 agora, de onde achas que vieram essas asas que n\u00e3o consegues usar para voar.\n\u2014 De quando a nossa esp\u00e9cie era selvagem? \u2014 perguntou o frango, espantado, com a asa levantada e a olh\u00e1-la fixamente.\n\u2014 Sim. Aposto que a tua esp\u00e9cie voava.\n\u2014 Quando?\n\u2014 Derivas das perdizes.\n\u2014 Aqueles p\u00e1ssaros lindos?! N\u00e3o parece nada\u2026\n\u2014 Evolu\u00e7\u00e3o. A Natureza \u00e9 cheia de mist\u00e9rios por descobrir, n\u00e3o \u00e9?\n\u2014 Parece que sim. Eu adoro.\n\u2014 O mist\u00e9rio que me intriga mais neste momento \u00e9 como \u00e9 que um gato e um frango se conseguem dar bem.\n\u2014 \u00c9 verdade, como te chamas? \u2014 perguntou o frango, com um tom s\u00e9rio. O gato pareceu um bocado atrapalhado.\n\u2014 Uh\u2026 sabes que mais? Agora sou selvagem. O meu nome \u00e9 Gato.\n\u2014 Nesse caso eu sou o Frango e ainda tenho fome.\n\u2014 Ent\u00e3o deixa-me explicar-te como se faz para colher o milho. Observa e aprende. \u2014 disse o Gato. Subiu para cima uma das plantas, que se dobrou imediatamente, e caminhou at\u00e9 \u00e0 ponta, que literalmente tocou no ch\u00e3o. \u2014 Trepas a planta ou penduras-te nela, como eu fiz \u00e0 bocado, e depois identificas a espiga e corta-la rente. Assim. \u2014 explicou, ao mesmo tempo que cortava delicadamente a espiga com a unha comprida e afiada.\n\u2014 Uau! E isto n\u00e3o \u00e9 grande demais para eu comer? Davam-me farinha disto, e agora percebo porqu\u00ea\u2026 \u2014 questionou o Frango, um pouco espantado.\n\u2014 Mr. Frango, sempre a complicar! \u2014 lamentou-se o Gato. Pensou por uns segundos, enquanto olhava em seu redor. Depois sorriu instantaneamente. \u2014 J\u00e1 sei! Tive a ideia mais revolucion\u00e1ria da hist\u00f3ria! \u2014 gritou o Gato, num tom de voz muito alto. Depois come\u00e7ou a correr de um lado para o outro, sempre atento ao ch\u00e3o.\n\u2014 E\u2026 que ideia \u00e9 essa? \u2014 quis saber o Frango, intrigado. \u2014 Um moinho para moer a farinha? Um\u2026 moinho que m\u00f3i a farinha sozinho?! \u2014 exclamou, excitado com a ideia.\nAt\u00e9 que o Gato volta a rebolar uma pedra enorme e p\u00e1ra \u00e0 sua frente com um sorriso euf\u00f3rico.\n\u2014 A s\u00e9rio, uma pedra? \u2014 disse o Frango, desiludido e num tom que transmitia aborrecimento. Revirou os olhos e voltou a fix\u00e1-los na \u201cideia revolucion\u00e1ria\u201d do Gato. \u2014 Eu nem sequer consigo pegar nisso! \u00c9 demasiado pesada e vai arranhar as minhas penas todas. \u2014 resmungou o Frango, e passou o bico nas penas que tinham sido estragadas pelo carro, para as alinhar. Depois fez uma express\u00e3o facial de repulsa, e come\u00e7ou a lamber a erva.\n\u2014 Que se passa? \u2014 perguntou o Gato, deixando escapar um risinho.\n\u2014 As minhas penas sabem a fumo. \u2014 explicou o Frango, com um ar de total desagrado. \u2014 E agora o meu bico sabe a erva. Tu disseste que comias erva-de-gato?\n\u2014 Yup.\n\u2014 \u201cYup\u201d?! \u00c9 mais \u201ceww\u201d\u2026\nO Gato n\u00e3o conseguiu evitar rir-se.\n\u2014 S\u00e3o gostos. \u2014 disse. \u2014 A Natureza quer que n\u00f3s gatos gostemos de erva porque precisamos dela.\n\u2014 \u00c9. A Natureza \u00e9 fant\u00e1stica.\n\u2014 Frango, acabaste de sair da capoeira e ainda s\u00f3 viste a tua regi\u00e3o. Quando estiveres dentro da casa de algu\u00e9m vais descobrir outro estilo de vida. \u00c9s como um gatinho que acabou de abrir os olhos. Tem calma, sei que agora \u00e9 tudo excitante para ti, mas agora vais construir o teu estilo de vida, e com as experi\u00eancias que vais viver ser\u00e1s capaz de escolher aquele com que te identificas mais. E eu estarei sempre aqui para te ajudar.\n\u2014 Obrigado, Gato. Mas agora podes mostrar-me a tua ideia para fazer farinha de milho? \u00c9 que eu ainda tenho cada vez mais fome\u2026\n\u2014 OK. \u2014 come\u00e7ou o Gato. \u2014 Observa e aprende. Primeiro, tens de tirar a espiga da planta, assim. \u2014 explicou, enquanto exemplificava. Com a espiga deitada no ch\u00e3o, pousou a pata esquerda da frente na espiga dourada escondida pelas folhas verdes e a direita no caule partido que j\u00e1 fizera parte da planta do milho. Depois pressionou a planta para evitar que esta sa\u00edsse do s\u00edtio e moveu para a esquerda a pata que segurava na espiga atrav\u00e9s de uma abertura nas folhas que a abra\u00e7avam. Esta deslizou no momento em que se separou da planta que lhe dera origem. \u2014 V\u00eas? F\u00e1cil! \u2014 exclamou o Gato, e continuou a explicar. \u2014 Agora s\u00f3 tens de debulhar a espiga, usando mais ao menos a mesma t\u00e9cnica. Seguras a espiga com uma das patas, ou no teu caso, uma das asas, e com a outra empurras os gr\u00e3os de milhos para que estes se soltem da espiga. \u2014 continuou, pondo o seu m\u00e9todo em pr\u00e1tica para provar que funcionava e para ensin\u00e1-lo ao jovem Frango. Um gr\u00e3o de milho soltou-se da espiga com um estalido e caiu no meio de um tufo de erva, enquanto a sua superf\u00edcie lisa refletia a luz do Sol.\n\u2014 Hum\u2026 Continua a ser um bocado para o grande, n\u00e3o achas? \u2014 perguntou o Frango, parecendo confuso.\n\u2014 Ainda n\u00e3o acabei! Agora espera e ouve. \u2014 disse o Gato, e estava a recuperar o f\u00f4lego para continuar com a sua explica\u00e7\u00e3o no momento em que o Frango tomou a palavra.\n\u2014 Espera e ouve?! Diz isso ao meu est\u00f4mago\u2026\n\u2014 A s\u00e9rio, Frango, tens mesmo de aprender a ser paciente. Viste como apanhei aquele rato, mesmo antes de come\u00e7ar a falar contigo para te transmitir os meus inteligentes ensinamentos sobre um estilo de vida selvagem? Se me tivesse precipitado o meu almo\u00e7o fugiria a correr (literalmente). \u2014 aconselhou o Gato. \u2014 Sim, porque j\u00e1 ouviste aquela express\u00e3o de \u201cA comida n\u00e3o foge.\u201d? Pois, \u00e9 mentira; aqui ou tomas a atitude certa ou ela foge, seja \u201cfugir\u201d de \u201ccorrer pela vida\u201d ou \u201cfugir\u201d de \u201cdesaparecer porque outro animal qualquer decidiu garantir que a fome n\u00e3o seria um problema para ele nas pr\u00f3ximas horas\u201d.\n\u2014 Exato\u2026 Nunca imaginei que fosse assim\u2026\n\u2014 Ainda tens muito que aprender, jovem frango. Mas eu terei todo o gosto em acompanhar-te nesta caminhada que te permitir\u00e1 conheceres o mundo que te rodeia e saberes viver nele, adaptando-te ao ambiente e \u00e0s situa\u00e7\u00f5es e desafios que a vida de proporcionar.\n\u2014 Pois, pois, obrigado. Mas agora gostaria que me ajudasses a sobreviver a essa caminhada, terminando a explica\u00e7\u00e3o do processo pelo qual o milho deve passar antes de o comer. \u2014 focalizou o Frango. Quando se trata de comida, quem n\u00e3o gosta de ir direto ao assunto?\n\u2014 OK, ent\u00e3o permite-me que exemplifique. \u2014 recome\u00e7ou o Gato, enquanto colocava a pedra e o gr\u00e3o de milho lado a lado. Depois usou todas as suas for\u00e7as do gato \u00e1gil que era para elevar do ch\u00e3o o pesado calhau o n\u00famero de cent\u00edmetros suficientes para passar acima do pequeno gr\u00e3o. Durante a demonstra\u00e7\u00e3o da sua \u201cideia revolucion\u00e1ria\u201d, o Gato lutava constantemente para conseguir falar e suportar o peso da pedra simultaneamente, pois o f\u00f4lego parecia-lhe insuficiente, o que o impedia de adquirir uma linguagem clara e de f\u00e1cil compreens\u00e3o. \u2014 Depois\u2026 fazes\u2026 assim\u2026 e tentas\u2026 tipo\u2026 esmagar o\u2026 gr\u00e3o\u2026. Assim! \u2014 tentou explicar o Gato, e gritou \u201cAssim!\u201d enquanto largava a pedra mesmo por cima do gr\u00e3o. Ouviu-se um estalido quando a pedra o esborrachou, e quando o Gato fez a pedra rebolar para o lado, a casca exterior do gr\u00e3o estava estalada. \u2014 V\u00eas? Assim j\u00e1 deves conseguir com\u00ea-lo. Experimenta. \u2014 sugeriu ao seu amigo esfomeado.\nO Frango, radiante, n\u00e3o conseguiu tirar os olhos do pequeno gr\u00e3o que, naquele momento, parecia ter adquirido o brilho caracter\u00edstico do ouro. Pelo menos para aquele jovem frango, que o via como um tesouro. Atirou-se a ele e usou a pequena fenda na casca para esgravatar com o bico at\u00e9 ter devorado todo o gr\u00e3o.\n\u2014 Que bom! J\u00e1 n\u00e3o me lembrava que comer era t\u00e3o fixe! Mas um gr\u00e3o n\u00e3o me tirou a fome\u2026\n\u2014 \u00d3bvio que n\u00e3o! \u2014 exclamou o Gato. \u2014 Tens no\u00e7\u00e3o da quantidade de gr\u00e3os necess\u00e1rios para fazer a quantidade de farinha suficiente para te encher o comedouro apenas uma vez?\n\u2014 N\u00e3o\u2026\n\u2014 Pois, ent\u00e3o n\u00e3o queiras ter. Imagina apenas um monte de cinco a dez espigas inteiras.\n\u2014 Inteiras?!\n\u2014 OK, talvez esteja a exagerar. Por volta de cinco espigas.\n\u2014 Mesmo assim \u00e9 muito\u2026 Isso explica muita coisa\u2026\n\u2014 Pois, tipo porque \u00e9 que ainda continuas esfomeado depois de UM gr\u00e3o de milho?\n\u2014 \u00c9\u2026\n\u2014 Agora temos \u00e9 que debulhar e esmagar esta espiga inteira. Vamos a um trabalho de equipa? Eu esmago e tu debulhas.\n\u2014 Claro que sim. \u2014 concordou o Frango. E puseram m\u00e3os \u00e0 obra.\nN\u00e3o foi preciso dizer duas vezes. O Frango apenas apanhou o jeito depois de in\u00fameras tentativas desesperadas para debulhar o milho. Mas, como n\u00e3o tinha grande for\u00e7a nas asas, s\u00f3 considerou uma vit\u00f3ria total quando come\u00e7ou a usar as patas, cujas unhas afiadas foram de muita utilidade na tarefa. Aprendeu a enfi\u00e1-las entre os gr\u00e3os de milho para os empurrar para fora da espiga, um trabalho de precis\u00e3o e que requereu algum treino e principalmente tempo. Mas, quantas mais vezes repetia, melhor o fazia e mais depressa o realizava. Numa hora, debulhou sete espigas, tendo demorado aproximadamente dez minutos nas primeiras que debulhou e cinco nas \u00faltimas.\nO Frango comeu aproximadamente tr\u00eas quartos de uma espiga, e depois ficaram a debulhar mais espigas e a esmagar gr\u00e3os por mais duas horas. At\u00e9 que, quando acabaram, ao fim das tr\u00eas horas, de debulhar a vig\u00e9sima oitava espiga, o Gato se lembrou de um pormenor.\n\u2014 Frango, importas-te de vir aqui?\n\u2014 Que se passa?\n\u2014 Eu n\u00e3o vou ficar o resto da tua vida contigo, por isso conv\u00e9m que saibas fazer tudo sozinho. Consegues deitar esta espiga abaixo da planta? \u00c9 que fui eu que apanhei as espigas todas hoje. \u2014 perguntou ele, apontando com a pata da frente do lado esquerdo para uma planta imponente de milho que, como quase todas as outras que ainda estavam de p\u00e9, guardava uma espiga cor-do-Sol.\n\u2014 N\u00e3o sei\u2026 \u2014 respondeu o Frango, hesitante. \u2014 Deixa-me tentar.\nAproximou-se da planta, e tentou subir para cima dela para a dobrar. Mas, para al\u00e9m de ser muito leve, n\u00e3o dominava o corpo como o Gato e o seu equil\u00edbrio n\u00e3o era suficiente para que se mantivesse de p\u00e9 ou at\u00e9 agachado em cima da fina planta. Ent\u00e3o decidiu mudar de estrat\u00e9gia, mas tamb\u00e9m n\u00e3o foi capaz de se pendurar na planta, pois n\u00e3o a conseguia dobrar e, independentemente da posi\u00e7\u00e3o do caule relativamente ao solo, sempre que tentava segurar a planta fosse de que maneira fosse, as penas das asas escorregavam pelo caule e o cen\u00e1rio final era sempre o Frango no ch\u00e3o e a planta de p\u00e9.\n\u2014 Pois\u2026 \u2014 disse o Gato, pensativo, enquanto o Frango tentava pela trig\u00e9sima vez sem sucesso uma das estrat\u00e9gias, desta vez puxar a planta com quantas for\u00e7as tinha. Mas n\u00e3o conseguia agarrar firmemente na planta e acabou novamente no ch\u00e3o.\n\u2014 Gato, achas que consigo cortar o caule com as minhas unhas? \u2014 perguntou o Frango, j\u00e1 a ficar desesperado e aberto a quaisquer sugest\u00f5es.\n\u2014 Tenta. \u2014 sugeriu o Gato, virando-se para o Frango. Este tentou, mas a planta era demasiado grossa e percebeu ia demorar uma eternidade apenas a triplicar o pequeno golpe que conseguira fazer na planta durante um minuto inteiro.\n\u2014 N\u00e3o d\u00e1. \u2014 lamentou-se o Frango. \u2014 Eu n\u00e3o sou capaz.\n\u2014 Cortar\u2026. \u2014 repetia o Gato, aparentemente sem prestar aten\u00e7\u00e3o \u00e0s lam\u00farias do Frango. Parecia determinado a encontrar uma solu\u00e7\u00e3o. \u2014 Cortar\u2026\nO Gato olhou em volta virando energicamente a cabe\u00e7a, \u00e0 procura de uma solu\u00e7\u00e3o no meio do terreno. O Frango percebeu que a encontrara quando os seus olhos verdes vivos brilharam e um sorriso apareceu repentinamente no seu focinho, afastando os bigodes mais do que o habitual. O Gato saiu disparado a correr. Apanhou uma cana j\u00e1 meia seca comprida, tirou-lhe as folhas amarelas e come\u00e7ou a correr o mais depressa que conseguia com ela na boca at\u00e9 chegar ao s\u00edtio onde se encontrava um vidro castanho semi-enterrado, perto do passeio, que outrora fizera parte de uma garrafa de cerveja que provavelmente havia sido atirada para o campo depois de vazia. Voltou novamente ao outro canto do terreno a correr com as duas coisas na boca e pousou-as para apanhar uma folha de piteira grossa e resistente. Apressou-se a voltar para a beira do seu amigo, onde usou as unhas agu\u00e7adas e bem tratadas para fazer uma ranhura na ponta ainda verde da cana, paralela \u00e0 sua extremidade e a uns dois cent\u00edmetro desta. Depois enfiou o peda\u00e7o de vidro triangular curvado na mesma extremidade da cana oca, at\u00e9 este fazer press\u00e3o nas paredes da cana. Finalmente, passou a piteira pela ranhura e depois deu a volta ao vidro pelo lado oposto. Repetiu o movimento v\u00e1rias vezes, com a ajuda das quatro patas \u00e0 vez, das garras, da boca e dos dentes afiados. Quando chegou \u00e0 ponta oposta da piteira, o Gato esfor\u00e7ou-se por dar um n\u00f3 o mais fixo e resistente poss\u00edvel, e depois prendeu a ponta da piteira numa das voltas que j\u00e1 tinha dado com a mesma. Assim que terminou, agarrou a sua engenhoca com a boca e exclamou o mais claramente que conseguiu:\n\u2014 Taran!!! E aqui ezt\u00e1 a holuch\u00e3o bara todoz oz teuz broblemaz!\n\u2014 Uau! O que \u00e9? \u2014 perguntou o Frango, entusiasmado. O Gato pousou a sua engenhoca no ch\u00e3o e fixou-a com o olhar enquanto falava.\n\u2014 Vou batiz\u00e1-lo de \u201cCorta-Milho\u201d! O que achas?\n\u2014 Espetacular! E serve\u2026 para cortar o milho?! \u2014 adivinhou o Frango, cada vez mais excitado com a ideia de ser independente.\n\u2014 Como o pr\u00f3prio nome indica. \u2014 afirmou o Gato. E voltou a olhar para o Frango. \u2014 N\u00e3o \u00e9 preciso ser-se um g\u00e9nio para perceber isso. \u2014 esclareceu. Depois pegou na sua inven\u00e7\u00e3o novamente com a boca e dirigiu-se \u00e0 pobre planta de milho que fora escolhida para cobaia das experi\u00eancias e tentativas falhadas do Frango que, de t\u00e3o intrigado que ficara com a correria do Gato, cessara de tentar tudo exceto perceber o que se passava com o seu amigo. Compreendeu assim que o Gato balan\u00e7ou o Corta-Milho com a l\u00e2mina de vidro no ar, cortando o caule da planta em plena queda e com um corte limpo e seco, de uma s\u00f3 vez. Os olhos amarelos do Frango brilharam de excita\u00e7\u00e3o quando o Gato olhou para ele com um sorriso t\u00e3o grande que fazia com que alguns dos seus bigodes quase se enfiassem nas grandes orelhas.\n\u2014 \u00c9 a tua vez. \u2014 anunciou o Gato.\n\u2014 Estou t\u00e3o contente! \u2014 exclamou o Frango. Pegou com as asas no Corta-Milho que o Gato deixara no ch\u00e3o \u00e0 sua frente, segurou-o na vertical e tentou manipul\u00e1-lo para que este cortasse a planta. Ap\u00f3s algumas voltas, l\u00e1 conseguiu acertar com o caule e a parte de cima da planta com a espiga caiu no ch\u00e3o.\n\u2014 Fant\u00e1stico! \u2014 gritou o Gato. \u2014 Afinal, apesar de voc\u00eas frangos n\u00e3o terem sido compensados com capacidades f\u00edsicas, debaixo desse monte de penas e dessa crista vermelha existe alguma coisa a trabalhar. E acredita em mim quando digo que essa cabe\u00e7a \u00e9 capaz de fazer muito mais para al\u00e9m de agitar um pau no ar, s\u00f3 precisas de um bocadinho de treino para fazeres tudo o que quiseres.\n\u2014 Achas?! \u2014 exclamou o Frango, ainda mais entusiasmado.\n\u2014 Habituaste-te depressa \u00e0 vida selvagem, vais ver que daqui a umas semanas vais estar a desenrascar-te como um gato n\u00e3o t\u00e3o bom como eu, mas quase. \u2014 afirmou o Gato, todo confiante e orgulhoso de si, como sempre.\n\u2014 Obrigado? \u2014 agradeceu o Frango, um pouco confuso. Mas come\u00e7ava a perceber a ess\u00eancia daquele gato, e de alguma forma a ach\u00e1-la interessante. Sabia que por tr\u00e1s daquele ar imponente e orgulhoso estava escondido um lado um tanto sens\u00edvel e muito atencioso do Gato, que ele revelava apenas em algumas situa\u00e7\u00f5es atrav\u00e9s de determinadas atitudes e rea\u00e7\u00f5es. Mas a forma como ele era alegre e engra\u00e7ado dava claramente para perceber que o Gato n\u00e3o fazia aquilo por maldade; era apenas car\u00e1ter e fazia parte da sua maneira de ser. L\u00e1 no fundo, o Frango sabia que aquilo o tornava \u00fanico e especial, e que o seu amigo tinha um cora\u00e7\u00e3o enorme, incapaz de passar indiferente a qualquer situa\u00e7\u00e3o em que possa ser \u00fatil (talvez ensinar um jovem frango a ser selvagem, mesmo que tenha de passar horas com ele a cortar e a tratar o milho para que o Frango o possa comer).<\/code><\/pre>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Segundo cap\u00edtulo da hist\u00f3ria do Frango independente que fugiu da capoeira por recria\u00e7\u00e3o pr\u00f3pria. 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